quinta-feira, julho 30, 2015

Lucia in the Sky with Diamonds

É por isso que não podemos “ir” sem direção, mas na direção de nossos sonhos para que não possamos cair. 
Lucia era uma menina de 50 e poucos anos. Quando adolescente, ela era uma das mais belas e desejadas pelos garotos do bairro; da escola e das festinhas que frequentava. Aprendeu a fumar muito cedo e teve vários namorados, alguns foram breves e outros duradouros.
Conhecia a Lucia desde quando era pequeno, bem criancinha. Sempre a via tomando algumas doses de hi-fi ou pinga com groselha, coisa dos jovens dos anos 70 e 80. Quando a conheci no bairro, ela já não era tão bela, apenas simpática com seu sorriso com poucos dentes. A família da Lucia é uma das mais antigas da região e todos se comoviam quando encontravam Lucia na calçada com umas doses a mais na cabeça, chamavam seus irmãos imediatamente para socorrê-la.
Uma vez, na entrada de um Ano Novo, lembro-me da Lucia brigando com um dos seus namorados, ela pegou uma esponja bem grande que estava jogada em um canto da calçada e começou a “bater” no seu “amor” com a esponja, que estava toda suja, e o rapaz, corria gritando: “ai, ai, ai...” Toda a molecada começou a rir daquela cena hilária.

De vez em quando a encontrava na rua ou na padaria e, quando estava lúcida, antes de começar a sua rotina de beber, me cumprimentava e perguntava se eu estava bem, assim como os meus pais. Respondia que estava tudo bem e retrucava a ela, com a mesma pergunta. E você? Ela dava rizada e com alegria respondia: “Vou indo”.
Às vezes ela conversava com todos da vizinhança como se fosse uma adolescente, pois Lucia tinha poucos amigos e puxava assunto sempre com os moradores mais antigos e também com as crianças, e, várias vezes, à tarde a encontrei caída na calçada após ingerir poucas doses. Ela já não aguentava beber, estava fraca.
Interessante, tenho mais amizade com seus irmãos e, eles nunca me convidaram para ir a sua casa, tomar um café. No último sábado, Lucia passou em frente de casa e começamos a conversar, ela falou de sonhos simples, de uma dentadura ou algum implante dentário, falou também sobre a possibilidade de arrumar alguém que a queira. “Quem sabe eu arrumando a boca alguém possa me querer”, disse dando risada bem alta. Em seguida, viu meu filho e disse para levá-lo até o quintal de sua casa para ver uma pata e suas 10 galinhas e vários pintinhos no fundo de seu quintal.
Eu me empolguei com a ideia, e à tarde fomos eu e o João Vitor de apenas dois anos para ver as aves. No portão, fomos recepcionados por um de seus irmãos, pois a Lucia já não estava em casa e, adentramos até o fundo onde estavam os penáceos.  A pata ficava em um local exclusivo já a galinhada ficava solta pelo quintal. Ficamos uns 15 minutos e saímos, o João adorou ver todos aqueles animaizinhos ciscando pra lá e pra cá. Não vimos mais a Lúcia.
No último domingo, Lucia saiu mais cedo de casa, e após sair de um bar qualquer, andando pelas ruas, caiu em frente à igreja, bateu com a cabeça no chão e ficou ali, na calçada. Alguns pensaram que estava bêbada, outros acharam estranho e resolveram chamar a ambulância. Socorrida, Lucia não resistiu aos ferimentos e se foi, como ela dizia... “Vou indo, e foi”. Seus sonhos não se concretizaram, mas houve uma pequena comoção por Lúcia. A criança de 50 e poucos anos, que deixou de herança a sua maior riqueza, a educação, respeito e sonhos, que infelizmente não chegaram a serem realizados, mas reuniu dezenas de pessoas que compareceram à sua despedida e se foi. E é por isso que não podemos “ir” sem direção, mas na direção de nossos sonhos para que não possamos cair. Fique em paz Lúcia. God Bless.


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