O olhar - O desejo

O desejo

O olhar come...
O olhar cobiça...
O olhar infiltra...
O olhar deseja.

O olhar incomoda...
O olhar mente...
O olhar mastiga...
O olhar deseja.

O olhar perdoa...
O olhar deprime...
O olhar condena...
O olhar deseja.



Heróis dos contos de fadas - Como eles estão?

Chapéuzinho Vermelho engordou e continua com medo do Lobo Mau; O principe da bela Adormecida envelheceu no azilo; Branca de Neve, agora é dona de casa; e a cinderela anda de bar em bar pelas madrugas...





O Aparelho

By Sérgio Pires

Estava na sala da minha tia quando meu tio chegou em casa com um Aparelho 3 em 1. Ela alegremente sorriu e começaram a instalar o Aparelho ao lado da televisão. As duas caixas grandes de madeira ficaram bem nos cantos da sala enfeitando o ambiente.

Todas as noitinhas, antes da minha mãe chegar do trabalho para me levar para casa, meu tio chegava e começava a ouvir samba junto com seus amigos. Certa vez ele disse empolgado ao meu pai quando me buscou, no dia em que minha mãe não trabalhou.

“Poderia ter comprado um fusca. Prefiro a música.”

Certo dia, minha tia não me buscou da escola, pois disse que já podia pegar ônibus sozinho. Quando entrei na sala me surpreendi: um novo Aparelho. Desta vez era um 3 em 1 todo modulado. Tinha dois toca-fitas, um toca disco, e um receiver.

“Com este equipamento poderia ter comprado um GOL”, disse meu tio ao meu pai na festa de natal.

Nunca tive um aparelho de som, apesar de gostar tanto de música. Não saia da casa da minha tia, onde ouvia músicas no Aparelho do meu tio. Ia até nos finais de semana. Gravava fitas-cassete, regravava discos, gravava fitas para amigos e conquistava as meninas com coletâneas de fitas-cassetes.

Anos depois meu tio morreu. Ficaram apenas minha tia, meu primo e o Aparelho. Com a casa triste, continuei usando o Aparelho que não tinha, mas tinha carro. Junto com meu primo. Gravava fitas e fazia coletâneas.

Depois foi meu primo. Morreu. Ficou apenas minha tia e o Aparelho. Era modulado. Então o Aparelho foi dividido. O toca-discos quebrou. O receiver ficou com minha tia e dois toca-fitas foram para casa.

Com o tempo, não gravei mais fitas, nem gravei mais coletâneas para amigos, nem para namoradas.

Às vezes vou de carro até a casa da minha tia. Lá, vejo parte do aparelho em seu quarto. As outras se foram.

Em casa estão duas peças. Paradas. Minha tia me deu depois que ficou só ela e o aparelho. Levei-as até a feira. Troquei os dois toca-discos por um “equalizador” bem antigo.

Tempos depois, chegou o CD e o MP3. Agora a música é pelo computador. Instalei o tal equalizador no computador, que tem 10 botões incandescentes que, ao ligar todos acendem. A música digital fica mais nítida, sem chiados, mais limpa...

Algumas pessoas ainda perguntam:

“Por que você coloca esta peça aí?” Outras ainda questionam o funcionamento do equalizador:

“Que negócio feio é este aí? Funciona? Se você quiser te pago R$ 1,00 para jogar isso no lixo”.

“Meu, não troco este aparelho por nenhum carro. Nem por um fusca!

Fui na casa da minha tia com meu filho. Ela tinha outro aparelho na sala desligado. Era digital, as caixas eram pequenas, bem discretas junto da televisão. Juntinho do DVD.

Ao entrar no quarto: Estava ela lá, junto do Aparelho ligado.

UP - Altas aventuras

O que está acontecendo no mundo da animação? As crianças estão adultas ou será que os adultos estão cada vez mais crianças? Depois de Wall-E e a historinha do robô que abordou o tema sobre o "meio ambiente" de uma forma bem inteleligente, chega agora "UP - Altas aventuras", que é capaz de encantar a pessoa mais cética que diz odiar filmes de animações. Trata-se de um filme que fala de amor, de perda, de ganhos e de valores que estão perdidos na sociedade. Resumindo: É fantástico!

Blog da escritora Ivana Arruda Leite

Caramba! Sem querer achei o blog da escritora Ivana Arruda Leite. Autora da obra "Falo de mulher". Meu, vale a pena conferir, seu blog é como um verdadeiro diário e cada post dela é uma aula de literatura. http://doidivana.wordpress.com/

Kiusam Oliveira: O feminino reencontrado na arte

Por Sérgio Pires

Pular, gritar, gesticular, apoiar, elogiar, sorrir, chorar e tudo isso com muito suor. “Se for preciso vamos nos desmanchar em sangue.” É desta forma que a Profª Drª Kiusam de Oliveira trabalha há mais de 28 anos, tanto na dança em seus ensaios, quanto com o movimento negro, cujos trabalhos se entrelaçam e forma uma única concepção. Foi daí que surgiu a peça “Igbá-Iwà: O feminino na criação do universo”, que está sendo ensaiada no Teatro Clara Nunes em Diadema.

Era ainda junho quando ensaiava no teatro Clara Nunes. Kiusam como uma maestrina, redigia os bailarinos em seus movimentos. “Quero garra, mais ação e com mais vontade”, dizia se dirigindo às bailarinas, cujas origens são da própria população. “Conforme vai esquentando, elas (as dançarinas) vão se aprimorando, é a superação, ir além dos limites. Se vocês desmaiarem de tanto treinar, isso já será um mérito”, dizia como forma de incentivo.

Esta garra da professora apresentada durante seus ensaios apareceu quando ainda era criança. “Fui alfabetizada cedo, aos dois anos, através da Dona Marta, ainda no chão de terra. Ela me mostrou a arte, depois fui estudar em um colégio de freira e ali conheci o racismo e de uma forma violenta. O processo de identidade foi rompido, quebrado pelo preconceito.”

Militância e a dança - No final dos anos 70, Kiusam ingressa no movimento negro “Balogun”, onde começou sua militância política. Enquanto isso, a arte caminhava paralelamente em sua vida. “Já era bebê assanhada e minha mãe me colocava para dançar e desfilar. O teatro foi uma sequência da minha família”, diz. Kiusam começou no ballet clássico e logo em seguida foi para o jazz aos 12 anos, até chegar hoje, em seu trabalho “Igbá-Iwà: O feminino na ligação do universo.”

A militância política a ajudou a revolucionar a linguagem da dança através de seus questionamentos do corpo junto à dança clássica, pois é esta a base da dança. E isso não se conquista de uma hora para outra. Até chegar a este grau de conhecimento dos movimentos do corpo, passou pela escola de samba Unidos do Peruche, nos anos 80. Com a dança, viajou por todo o Brasil e exterior. “Me encantei, pois não preciso parar de fazer o clássico e o contemporâneo, para trabalhar com a mulher e o feminino.”

Pesquisa na USP – Toda a experiência de Kiusam se canalizou em um projeto de mestrado em Psicologia e doutorado em mitologia africana. A tese traz a Umbanda, candomblé e o movimento negro. Junto com tudo isso vem a mulher negra e seus valores. “Nunca perdi de vista o que é ser mulher negra. Quando vamos trabalhar o mito, mostra uma mulher negra estereotipada, isso me deu o poder de formar a dança e os mitos associados.”

Segundo Kiusam, o feminino está muito longe em termos de características pessoais. O feminino não está atrelado a meiguice passiva. O feminino está sempre atrelado com as necessidades de compartilhamento, pois a mulher sempre deve ser pró-ativa. É um feminino que não pede a centralidade e que não está associado a coisas prezas.

Esse é o objetivo do espetáculo de Kiusam, pois o objetivo da dançar é mostrar com uma linguagem específica informando através do corpo, que o universo foi criado por uma mulher, a “dudua” (mito religioso em Iorubá). Através dos mitos urbanos mostra uma outra referência com o poder. “Trata-se do ‘apoderamento’. É uma dança social, que busca engajamento”, afirmou.

O ensaio acontece desde abril, quando começaram as audições, com os professores da rede municipal e depois aberto a população. “Este é o diferencial, são pessoas da comunidade que estão representando Diadema”, relata.

Identidade – Para Kiusam, a dança faz parte de uma linguagem utilizada para construção da identidade. “Para isso precisamos da aceitação do outro e, no ambiente escolar é difícil ver isso. Hoje defendo as questões complexas, pois não existe um assunto que não depende da realidade física.”

O trabalho de Kiusam é desenvolvido em Diadema onde conhece os Núcleos e as favelas. É um público específico e de afrodescendentes, onde o preconceito é grande e as próprias crianças negras chamam seus amigos de ‘neguinho’ ou ‘macaco’. “Houve uma construção social que os levaram a pensar desta forma. Quem tem problema de identidade com o negro é o próprio negro, pois ele se acha branco. Há uma confusão.”

A diretora também atua na Promotoria de Legião Popular, organização que apóia projetos voltados à população carente para trabalhar a questão do gênero. Trabalhou com um grupo de 84 mulheres e constatou que o papel da mãe é fundamental. “A corporeidade é construída ao longo da vida, ou seja, durante formação do indivíduo”, relata.

O espetáculo “Igbá-Iwà: O Feminino na Criação do Universo” é de tradição iorubá, onde igbá-iwà significa “Cabaça da Existência”. A montagem tem como objetivo, promover o encontro pacífico entre a sociedade civil com a cultura afro-brasileira deixada como legado pelo povo ioruba trazido à força ao Brasil no período da escravidão. Pretende também, revelar a importância do feminino no processo de criação do universo, segundo a mitologia ioruba.

Fotos de Elliot Erwitt

O excelente fotógrafo Elliot Erwitt, que teve o privilégio de fotografar a Monroe...

Fotógrafo flagra cachorro de madame e junto aos pés de sua dona

Lô Borges - Chuva na Montanha

Totonha

Marcelino Freire

Capim sabe ler? Escrever? Já viu cachorro letrado, científico? Já viu juízo de valor? Em quê? Não quero aprender, dispenso.

Deixa pra gente que é moço. Gente que tem ainda vontade de doutorar. De falar bonito. De salvar vida de pobre. O pobre só precisa ser pobre. E mais nada precisa. Deixa eu, aqui no meu canto. Na boca do fogão é que fico. Tô bem. Já viu fogo ir atrás de sílaba?

O governo me dê o dinheiro da feira. O dente o presidente. E o vale-doce e o vale-lingüiça. Quero ser bem ignorante. Aprender com o vento, ta me entendendo? Demente como um mosquito. Na bosta ali, da cabrita. Que ninguém respeita mais a bosta do que eu. A química.

Tem coisa mais bonita? A geografia do rio mesmo seco, mesmo esculhambado? O risco da poeira? O pó da água? Hein? O que eu vou fazer com essa cartilha? Número?

Só para o prefeito dizer que valeu a pena o esforço? Tem esforço mais esforço que o meu esforço? Todo dia, há tanto tempo, nesse esquecimento. Acordando com o sol. Tem melhor bê-á-bá? Assoletrar se a chuva vem? Se não vem?

Morrer, já sei. Comer, também. De vez em quando, ir atrás de preá, caruá. Roer osso de tatu. Adivinhar quando a coceira é só uma coceira, não uma doença. Tenha santa paciência!

Será que eu preciso mesmo garranchear meu nome? Desenhar só pra mocinha aí ficar contente? Dona professora, que valia tem o meu nome numa folha de papel, me diga honestamente. Coisa mais sem vida é um nome assim, sem gente. Quem está atrás do nome não conta?

No papel, sou menos ninguém do que aqui, no Vale do Jequitinhonha. Pelo menos aqui todo mundo me conhece. Grita, apelida. Vem me chamar de Totonha. Quase não mudo de roupa, quase não mudo de lugar. Sou sempre a mesma pessoa. Que voa.

Para mim, a melhor sabedoria é olhar na cara da pessoa. No focinho de quem for. Não tenho medo de linguagem superior. Deus que me ensinou. Só quero que me deixem sozinha. Eu e minha língua, sim, que só passarinho entende, entende?

Não preciso ler, moça. A mocinha que aprenda. O doutor. O presidente é que precisa saber o que assinou. Eu é que não vou baixar minha cabeça para escrever.
Ah, não vou.

In Contos Negreiros, pp79-81.Record, 2005