Ninguém te avisa, mas ser legal tem efeito colateral: quanto mais você agrada, mais gente aprende a não te levar a sério. E tem sempre aquele colega que te abraça na copa e te desmonta no corredor.
Eu conheço o tipo porque certa vez, fui o cara que levava o bolo. Participava do aniversário de todo mundo, comprava, cortava, fazia o pix da contribuição, distribuía e ainda recolhia o prato. Dizia “deixa que eu faço” antes de alguém terminar de pedir. Achava que estava plantando amizade. Estava, na verdade, abrindo uma conta sem limite, e a conta era só minha.
Também fui o cara que entregava relatório, plano, projeto: tudo no prazo, tudo certinho. Na reunião, aplausos e um “excelente trabalho”. No dia seguinte, a pasta estava exatamente onde eu a deixara, na mesma posição, com o mesmo ângulo, virgem. Aprendi que elogio, em certos lugares, é só um carimbo que dispensa a leitura.
Em um outro local, organizei palestras, desenhei planejamentos, pensei em anos à frente. Ninguém nunca perguntou o que vinha depois. Planejamento futuro, pelo visto, só interessa a quem pretende ter futuro ali. Eu planejava o futuro deles. O meu nunca entrou na pauta.
Teve ainda a semana em que, por três dias, encontrei na porta do meu carro, no estacionamento, um cuspe com catarro. Não acusei ninguém: não tive provas, só uma teoria. Mas convenhamos que, entre tantos colegas que comeram do meu bolo, alguém tem uma pontaria impressionante e uma opinião sobre mim que nunca teve coragem de dizer na reunião ou pessoalmente.
O pior é que eu mesmo ajudei a montar o personagem. Fiquei quieto quando devia contestar, engoli o que não concordava, sorri onde devia ter discordado. Achava que silêncio era educação. Para eles, era autorização.





